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Trio Lunanka, da Paraíba, emociona o público no 29° Domingo Concerto Bunkyô

 

No final da manhã do domingo, dia seis de agosto, o trio Lunanka integrado por membros de uma mesma família – a mãe pianista (Alice Lumi), o pai flautista (Fernando Farias) e o filho violoncelista (Kayami Satomi Farias) – veio especialmente de João Pessoa para participar do 29° Concerto Bunkyô, realizado no pequeno auditório da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa. O trio de uma formação pouco usual, também tocou um repertório incomum de peças japonesas, francesas e brasileiras, compostas entre 1880 e 1980.

Além da emocionante sintonia em família o público pode ouvir obras originais, ou arranjos e composição elaborados pelos próprios integrantes do trio, em primeira audição.

O repertório abriu com uma obra solo para violoncelo, possivelmente inédita no Brasil, chamada “Bunraku” [teatro de bonecos tradicional do Japão] (1960), onde o compositor Toshirô Mayuzumi (1927-97) procurou evocar a técnica do shamisen e a narrativa, típicas daquele estilo dramático. O jovem Kayami impressionou pela sua expressividade e técnica. Kayami é bacharel em violoncelo na classe do Dr. Felipe Aquino, da UFPB, desde julho de 2005, quando passa a estudar na Escola Superior de Münster, com o professor Matias de Oliveira Pinto. Na Alemanha, Kayami é bolsista da Fundação Menuhin. Foi laureado em diversos concursos, destacando o XV Concurso Jovens Instrumentistas Brasil, em Piracicaba (primeiro prêmio). No último Festival de Campos, entre 160 estudantes rigorosamente selecionados de várias partes do mundo, recebeu uma bolsa de curso de férias em Viena, para 2007. Já foi concertista, solando à frente das Orquestras Sinfônicas de Campinas, de Piracicaba, da Paraíba e de Assunção (Paraguai).

Em seguida Fernando Farias[1] executou a peça “Mei” (1962), de Kazuo Fukushima, para flauta solo, pois a escreveu em memória de um amigo flautista. Mei significa alma, sombra, o indizível. No xintoísmo, a flauta tem o poder de penetrar no mundo sobrenatural para invocar deuses e espíritos. Fernando extraiu com maestria sonoridades próximas da flauta Noh e shakuhachi, “ele consegue pegar bem o sotaque, as nuances de sopro e ornamentos de cada cultura, como a quena andina ou o bassuri indiano”, completa AliceLumi. Fernando Farias é professor de flauta na UFPB, desde 1978. Integrou o Quinteto Armorial, gravando o LP de mesmo nome do grupo, em 1978, e Sete Flechas (1980); Quinteto Itacoatiara, participando da gravação do CD “Visões Sertanejas”; e atualmente integra o Quarteto Romançal. Músico atuante em trilhas sonoras, destacando-se “Eu, tu e eles” (Waddington 2000) e “Deus é brasileiro” (Diegues 2003).

A terceira peça “Ariette” (1944) foi um duo para flauta e piano, do compositor Tsuna Iwami, cujo pseudônimo de iemoto em shakuhachi é Iwami Baikyoku V, representando a quinta linhagem da Escola Kinko. O compositor é radicado no Brasil desde a década de 50 e compareceu ao concerto, o que muito honrou e prestigiou o trio. Os arpejos delicados do piano, lembram a sonoridade do koto e os ataques da flauta aproximam-se do shakuhachi.  Como aluno de Kishio Hirao, há uma nítida influência da escola francesa, o que permitiu uma ponte para a atmosfera da música impressionista.

Para peça solo Alice[2] escolheu “Masques” (1907), peça bem pouco difundida de Debussy, elaborada no auge de sua fase madura, demonstrando o gosto pelo oriente com todas as peculiaridades de diluição e contrastes da música impressionista.

Para finalizar a primeira parte o trio se juntou para tocar a obra mais antiga do repertório, a primeira “Gymnopédie” (1888), de Eric Satie que segundo Alice, antecipou a música ambiente pelo clima etéreo e relaxante, ganhando muitas versões posteriores, desde Debussy, passando pelo jazz e rock. A versão para trio é um arranjo do Kayami.

Após um breve intervalo, a segunda parte iniciou com uma coloração bem brasileira com duas obras do compositor paraibano, José Siqueira (1907-1985). Além de regente e pedagogo foi um líder musical atuante que fundou a Ordem dos Músicos do Brasil e a Orquestra Sinfônica Brasileira. A “Suíte Sertaneja” (1949), para violoncelo e piano, explora os ritmos de baião, aboio e coco de engenho, trazendo a forte carga da ambiência sertaneja do nordeste brasileiro. E “Tempo de Toada”, segundo movimento de “Três Estudos para Flauta” (1964), explora o timbre grave da flauta contrastando com um baião mais lento no piano.

Após a incursão nordestina um retorno ao oriente, desta vez, deleitando o público com um tema melodioso “Kaze no Toorimichi [Caminhos do Vento]”, do compositor Jo Hisaishi (1987) do cinema de animação intitulado “Tonari no Tottoro [O vizinho Tottoro]”, com um arranjo muito acertado para violoncelo e piano, de You-she Matsuyama.

“Trio Carol” (1980), foi escrito originalmente para flauta, violoncelo e piano por Alice Lumi, quando era estudante de composição na Unicamp, utilizando propostas rítmicas do professor e amigo, José Eduardo Gramani, a quem dedicou uma homenagem póstuma. Entre várias composições constam na discografia de Alice Lumi: “Kátems” (1984), em Canto Cereal, com Grupo Etnia, em 1992; “Triptico à Macunaíma” (1992), em Mário de Andrade por músicos da Paraíba, UFPB, em 1993; e “Rapsódia da Caboclonagem” (2002), em Retratos da Música Brasileira, com a Camerata Brasílica, em 2003.

Para terminar o trio convocou a caçula Mayara Farias – estudante de violino do prof. Ademar Rocha – para completar a família e o arranjo instrumental para quarteto, de Kayami, da canção tradicional japonesa “O-Edo Nihonbashi”, homenageando todos os presentes, familiares e professores de Alice Lumi tais como Satiko Fukuda, Junko Yamakawa, Kilza Setti, Sumie Saito e Yûko Ogura.

Após insistentes aplausos da platéia em pé, a família voltou emocionando ainda mais o público presente com um arranjo instrumental da canção “Sakura” para quarteto, de Alice Lumi (“um mix de arranjos interpretados por Yo-yo Ma, Rampal, Michio Miyagi e Seiho Nomura”, diz ela). Desta vez a sonoridade do koto, tocado por Mayara, trouxe a ambiência ancestral, e os solos bem divididos de flauta e violoncelo, proporcionaram a pitada personalizada, criativa, expressiva e envolvente do quarteto familiar.



[1] Flautista graduado pela UFPB na classe do prof. Gustavo Paco di Géa., em 1995, antes obteve aperfeiçoamento com Antônio Carlos Carrasqueira, na USP, em 1989. Participou de boa parte da discografia do compositor Antonio Madureira: Orquestra Romançal Brasileira (1977), Brincadeiras de roda, estórias e cantigas de ninar (1983), Baile do menino Deus (1983), Lua Cambará (1990) e Inventário do amor (2000). Como integrante do Grupo Etnia (1986-94) interpretou flauta, flautim, gaita de caboclinhos, kena, siku, ocarina, gaita e marimbau (instrumento bicórdio nordestino) no LP Canto Cereal. Músico requisitado em shows de música étnica, participando ao lado de músicos como Antonio Nóbrega, Antúio Madureira, entre outros

[2] Nascida em São Paulo, pertence ao quadro da UFPB desde 1992, onde é professora de piano do Curso de Educacão Musical e de etnomusicologia, no Programa de Pós-Graduação em Música, exercendo a coordenadoria do Núcleo de Pesquisa e Documentação em Cultura Popular (Nuppo). É vice-presidente da Associação Brasileira de Etnomusicologia e presidente da Associação Cultural Brasil-Japão da Paraíba. Autora da tese “Dragão Confabulando; etnicidade, ideologia e herança cultural através da música para koto no Brasil” (2004) e da dissertação “As Gotas de Chuva do Telhado: música de Ryûkyû em São Paulo” (1998), ambas defendidas na UFBA. Iniciou-se no piano aos seis anos, com a profa. Satiko Fukuda, e prosseguiu com a profa. Junko Yamakawa (1967-77) que a apresentou na Kunitachi Music College, onde freqüentou aulas de piano, coral e composição didática,. Em 1974 obteve o primeiro prêmio do VI Concurso Clarice Leite, para piano. Em São Paulo, como integrante do Grupo Tarancón atuou em mais de duzentas apresentações nos cinco primeiros anos do grupo, desde 1973, quando vivenciou a cultura musical andina empreendendo viagens à Bolivia, Chile, Argentina e Peru. Participou da gravação dos LPs Gracias a la Vida (1976) e Lo Único que Tengo (1977). Desde 2004, tem promovido e executado koto em concertos de música clássica japonesa, em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Maceió e João Pessoa. Nesta fundou – com Fernando Farias, Milton Dornellas e Paulo Ró, o Grupo Etnia, em 1986-94. Participou em Tóquio de duas mostras de música latinoamericana, com o grupo Los Kollas e Kazuaki Yamaguchi, em 1978.


Etnomusicóloga compartilha resultado de tese na comunidade pesquisada em São Paulo

 

A etnomusicologia é um ramo recente da musicologia que estuda a música viva (geralmente tradicional) e suas implicações sócio-culturais emprestando a metodologia da antropologia, ou seja, através da pesquisa de campo analisa também a conduta e contexto cultural. No Brasil é possível se especializar em etnomusicologia somente nos programas de pós-graduação em música ou antropologia em raras universidades. A Universidade Federal da Bahia (UFBA) é um desses redutos e a pioneira na implantação da área de concentração em etnomusicologia, inserido numa pós-graduacão em música, no início dos anos noventa. E uma das primeiras teses defendidas, em Salvador, versou sobre a música dos imigrantes japoneses – tema explorado apenas pelo sociólogo Shûhei Hosokawa, de Tóquio, e pelo etnomusicólogo Dale Olsen, da Califórnia – cuja autora é Alice Lumi Satomi, professora do Departamento de Educação Musical e do Programa de Pós-graduação em Música, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde coordena também o Núcleo de Pesquisa e Documentação em Cultura Popular (Nuppo). Em 1998, ela concluiu a dissertação sobre a música de Okinawa em São Paulo, que foi convidada a participar do 35th International Council for Traditional Music, realizada em Hiroshima, em 1999.

Descendente de pai jun-nisei, vindo em 1918, de Wakayama, e mãe nisei (cujos pais vieram de Fukuoka e Hiroshima, em 1919), ela nasceu em São Paulo. De formação pianística, despertou para a pesquisa musical quando integrava o grupo Tarancón, na década de 70, em São Paulo, onde, além da atuação artística e ideológica, sentia-se impulsionada a conhecer na fonte as músicas e músicos populares do altiplano andino. Tornou-se entusiasta da música e cultura japonesa quando conheceu o país ancestral, em 1978. Casada com Fernando Farias – professor da UFPB e flautista do Quarteto Romançal (de Recife) –, mãe de Mayara Yuri (18, estudante de violino e koto) e do violoncelista Kayami, formou-se em composição pela Unicamp, em 1984, antes de radicar-se em João Pessoa. Desde então tem se dedicado à pesquisa, ensino, performance (piano e instrumentos étnicos) e composição. Dentre suas obras gravadas constam: Kátems (1992); Tríptico a Macunaíma (1993); e Rapsódia da Caboclonagem (2003).

A tese intitulada “Dragão confabulando...: etnicidade, ideologia e herança cultural da música para koto no Brasil” descreve o surgimento, a manutenção e adaptação dos grupos atrelados à Associação Okinawa Kenjin do Brasil (AOKB), Miwa-kai e Associação Brasileira de Música Clássica Japonesa (ABMCJ), analisando as condutas culturais dos praticantes de música tradicional japonesa.  Nos dois primeiros prevalecem atitudes coletivistas peculiares ao imigrante pré-guerra. Já a mentalidade do pós-guerra que tenta a recuperação do senso estético, predomina na ABMCJ, embora no interior desses grupos convivam a conduta rural do imigrante pré-guerra e a mentalidade urbana e ocidentalizada do pós-guerra. As atitudes culturais de etnicidade, herança ou ideologia foram consideradas tanto como manutenção de valores da terra emigrada, quanto como adaptação aos valores da terra de acolhimento. Especulando as razões dessa resistência cultural, detectou-se que praticar a música tradicional de minoria étnica em uma megalópole como São Paulo pode ser um eficaz “mecanismo de defesa” ou de “elaboração de conflito” (Hashimoto 1995). Para imigrantes e descendentes, internos ou externos à comunidade, a música representa a reconstrução da terra ou de uma terra perdida, no espaço ou no tempo, um mundo idealizado, livre de contaminações.

            A tese foi indicada para publicação e Alice espera que isso aconteça até o centenário da imigração, pois aborda uma face inusitada e sensível da presença japonesa no Brasil. Por enquanto, além das cópias para devolução do resultado para os próprios grupos pesquisados, ela veio deixar a disposição dos interessados para a consulta, outras cópias impressas nas seguintes bibliotecas: Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, Aliança Cultural Vergueiro, Associação Okinawa do Brasil, Fundação Japão, Centro de Estudos Japoneses e cópias digitais na Escola de Comunicações e Artes da USP, Unicamp ademais da UFPB e UFBA.